Daqui há muitos anos, oscilando na minha cadeira de balanço – anatômica, de curvas arrojadas, num vai e vem cronometrado e de um impacto amortecido por suspensões de ar de uma capacidade de aderência incrível – pego no meu colinho, no meu balanço e em meus abraços os meus
netinhos, meus pituquinhos...
Eles, com aquela ingenuidade gostosa de criança, querendo absorver de tudo, querendo “formar” o mundinho (in)defeso deles, ouvindo atentamente a avó que, também, eles prezam por honrar...
Eu, senhorinha orgulhosa da vida, com óculos de poucos graus, coração cheio e um ar de satisfação estampado no rostinho redondo e enrugadinho. Felizzz por desfrutar dos netos e do balançar. Certa de q tenha valido a pena cada segundo vivido.
E recontei pra eles, só q dessa vez ainda com um pouquinho mais de dias de saudade do que da outra, uma das muitas peripécias de minha vida…
“Vovó, vovó, conta de novo pra gente aquela história, daquele moço, da tua música… conta vovó!! E canta pra gente, cantaaa vaiiii…”
Suspirei.
“Foi linda mesmo… aconteceu há muito, muuuito tempo atrás… já me chamavam de JAPINHA... lembro q a vovó era jovem, bonita, cabelos longos morenos, de dentes originais, gravidade ainda ao meu favor… E a vovó, naquela época, ainda não tinha essa orelhinha molinha murchinha que vcs tanto gostam de mexer… me lembro q eu era viciada em perfume e em curvex…”
“Aquele aparelhinho pra esses pelinhos do olho, né vovó?” – e gesticularam com as mãos.
“Sim meus queridos… A vovó achava, naquela época “esbelta de ser”, q eu deveria ter o controle de tudo, principalmente dos meus sentimentos e de como as pessoas deveriam ser e agir… coisas de jovem… bobeira da imaturidade… e, me recordo, que essa sensação tensa e de controle desaparecia quando eu era tocada pelo
Amor verdadeiro…
Estar aqui com vcs é Amor, tomar cházinho da tarde como a vovó gosta de fazer é Amor, ter dado petelecos na mãe de vcs também foi por muito Amor…
Só q algumas vezes, como a da histórinha da minha música
que o
PITOCO* compôs - a vovó foi a
musa inspiradora -, que ele cantou pra mim e que fez um tremendo sucesso nacional e internacional, reconheci que o verdadeiro Amor também é compreendido com o passar do tempo, com delicadeza e sensibilidade de ações, simples, óbvias... feitas de coração... (
*o nome verdadeiro foi trocado para preservar o autor)
A música é linda, de uma bossa nova perfeita, de um acorde que até Roberto Menescal palpitaria, de juras de amor embutidas na certeza de que
o dia vem de novo, o amor.
Eu vou sorrirEu vou cantar..."
E cantarolei, com o agudo um pouco já trêmulo, esse hino ao amor...
"Portanto meus netinhos lindos da vovó… entreguem-se de alma para tudo o q fizerem na vida. Componham sinfonias nos play-grounds virtuais, nas gramas sintéticas e quando tiverem andando na bicicleta espacial q o pai de vcs deu de presente…
E saibam, pitoquinhos, independente de onde estejamos, o Amor sempre nós alcançará...
Amem. Exalem todos os sentimentos quando o Amor chegar...
Vão brincar, vão… dêem uns beijinhos aqui na vovó…”
...
hummm - smack - smack ...
“Ai vovó, como vc é cheirooosaaaa”
http://www.myspace.com/tocobr