quinta-feira, 27 de março de 2008

JAIRA e ALBERTO

Pra essa história ainda não achei um adjetivo bom, que encaixe perfeitamente, pra que eu possa começar a descrevê-la... Só sei que vale muito a pena eu recontá-la pra, eu mesma, ler depois...

...pra, eu mesma, ter de exemplo essa lição de vida...
...pra, eu mesma, saber que os sentimentos, qualquer um deles – do sufocar ao amar – todos eles são experimentados iguais-idênticos em todos nós terráqueos... e que aqui nesse mundo nem cor, nem credo e, principalmente, idade alguma não me provariam mais o contrário...
... pra, eu mesma, confirmar que o AMOR é um bem Maior que ainda existe, e persiste, e resiste, e atravessa ano, passa ano, ele continua o mesmo....

...


Metro de São Paulo, Trianon-Masp, o relógio marcava 15minutos pra alguma hora, acho q pras 16 ou 17... não me lembro bem...

Mas o que vem ao caso é que naquela hora em q eu colocava meu pé direito com tênis dentro do vagão, senti uma mão, sutil, no meu ombro e uma voz me perguntando:

- “Vc ta indo para onde moça? Mostraria pra essa senhora a direção pro Jabaquara?”

Dei meu braço curvadinho pra ‘senhourinha’ transpassar o dela pelo o meu. As portas se fecharam. Perguntei pra onde aquela lindinha, arrumadinha, q usava colares cumpridos com pedrinhas lilás, cabelo curto misturando louro com o já branquinho da idade, lápis preto delineando os olhos e muitos outros charmes, pra onde ela tava indo... Onde, nas redondezas do Jabaquara, pois gentilmente poderia ter dado uma caroninha pra ela.

Ela, já sentada na poltrona cinza preferencial, não conseguia lembrar o nome da rua e muito menos direcionar meu GPS mental pra onde eu poderia levá-la. Ela só sabia q tinha q virar à esquerda na saída do metro e na “curva lá” – ajudava com a mão – teria q contornar e pegar o primeiro ônibus de número... número... número... esqueceu!

Sra. Jaira, 77 anos, não conseguia lembrar de tais informações. O nervoso, nítido, era tanto que a impossibilitava de me comunicar, assumidamente, aquelas básicas informações.

Sra. Jaira estava muito nervosa, digamos quase sem rumo, pq o namorado dela, Sr. Alberto, 77 idem, tinha brigado com ela!!

(como assim um cara – um senhor! – brigaria com aquela senhora meiguinha, q em seus olhos se percebia q a tranqüilidade ali pairava, numa idade em q a paz deveria reinar?? Como assim?? Quem seria capaz de uma coisa dessas?)

Súbito pensei: “AQUELE FILHO DE UMA P.!!” Ainda bem q só pensei... respirei fundo, parei de projetar meus sentimentos nela e continuei a escutar pq cargas d’água, com 77 anos, eles não poderiam ter ido dançar no Carlota (ela tava na estação Trianon-Masp pq eles tinham combinado de dançar e o Excelentíssimo não apareceu!!! Argh!), ficarem bUnitinhos e estarem, simples e prazerosamente, curtindo essa fase da vida?? Como assim...

E entre uma enxugada e outra de lágrimas ela continuou: - “Aquele véio é ciumento!! ...fui, andando, fazer compras no supermercado... tava cheio... demorou pra empacotar... atrasei uns minutinhos, chego em casa e escuto: “Onde é q vc tava?? Com quem vc estava??"... fala pra mim se eu tenho idade pra escutar esse tipo de coisa?? fala... e olha que a gente já se conhece há mais de 10 anos! O mínimo que eu merecia era respeito. E tudo que eu não precisava eram aquelas palavras, nessa idade, do homem que eu amo!... Duvidar q eu estaria com outro? Tem cabimento?”

E as lágrimas continuavam descendo pelo seu rosto enrugadinho e cheio de sardinhas nascidas com o passar dos tempos...

E, certeza, o percurso daquele ônibus foi o mais longo de todos aqueles anos... Aliás, vir de Santana, de onde ela mora, pro Jabaquara era sim a estrada mais longa que aquele amor estava sendo condenado.

- “To indo lá pra ficar esperando ele no quintal – tenho a chave do portão – quero acabar com esse sofrimento. Ao menos, vou saber se ele quer ou não continuar comigo. Pq desse jeito eu não quero ficar.”

Foi assim, ela decidida, que as portas da estação Conceição (não Jabaquara) se abriram e, antes dela descer, eu, pra tentar amenizar aquela dor, lançava no ar a minha “jovem frase clichê”:

“Fica tranqüila Dona Jaira, vai dar tudo certo!”

...

Passaram-se os dias e fiquei vários deles pensando nela, naquela situação, Santana-Jabaquara (e achando q Interlagos é longe)... pensando naquele filho da p. do Sr. Alberto! (mas eu só tinha escutado a parte feminina - não pude resistir) e mentalmente via e revia aquele filme e tentava imaginar como é q aquela história terminaria... com ou sem um final felizzz? Felizzz pra mim, felizzz pra ela, que felizzz seria pra ele? Pra nós?

...é, os dias se passaram...

Só que lógico que tinha pego o telefone da Sra. Jaira. E lógico que hoje eu liguei:


- “Alô, Dona Jaira? É a moça que te conheceu no metro, tudo bem? To ligando pra saber como a senhora está. Deu tudo certo?”

- “Oi. Estava pensando em vc mocinha... Que bom que vc ligou.”

(naquela hora, meu coração já tinha batido e voltado da “Consolação” na espera louca daquela estação “Paraíso”)

- “Deu tudo certo sim, graças a Deus... Cheguei lá, ele estava lá me esperando, ele sabia que eu apareceria, conversamos bastante e agora está tudo bem!”

Respirei aliviada e, de inxirida, continuei - “Mas o q ele disse pra Sra.?”

- “Nessa nossa idade, viu, ele descobriu que tem alguma coisa no coração e que vai precisar fazer algo, que não sabemos ainda o que é, e ele está muito tenso e nervoso e, por causa disso, ele não tava sabendo separar as coisas...”

(de FDP ele passou para o senhourinho Albertinho)

Continuou: - “Falei pra ele que eu amo ele, que eu quero ele tanto bem e que não estamos mais na idade de sufocar a vida... Falei pra ele que ainda mais nessa fase eu quero estar do lado dele, para curtirmos juntos tudo o q vier pela frente, seja bom ou não...”

(e o q foi bom escutar aquilo?)

E completou - “Viu, um dia vc ainda vai conhece-lo!”

(e isso então?)

...

Ô Seu Alberto, não faz isso com a gente nãoooooooo!!!!

4 comentários:

philchaves disse...

Japinha.. Que bom que terminou td bem com os senhourinhos!! Lá na praia quando contou, o veio era um cafajeste.. Agora ficou bonzinho!!!!

Rafita Campanati disse...

Oi Alessandra...tenho lido o seu blog por indica�o do Anselmo, de Cuiab�...

Criei um blog h� pouco tempo e gosto de ler o que os outros pensam...tenho pasado sempre por aqui...acabo sempre aprendendo um pouco. Parab�ns!

Linda essa hist�ria...puro contos de fada, ou melhor, contos de vida!

Beij�o,

Rafaela.

Rafita Campanati disse...

* passado, saiu errado!

Renata disse...

Japinha... AMEI seu blog!!!! Beijos da Rê-Senver-Leão